Bets não estão entre as principais causas de endividamento e proibir beneficiários do Desenrola Brasil levará apostadores para o mercado ilegal
Com o lançamento do Novo Desenrola Brasil, o governo criou oportunidades para famílias endividadas renegociar contratos e retomar uma vida financeira mais equilibrada. A proibição de apostas abre o mercado ilegal para os beneficiários que não poderão apostar em sites licenciados. Essa é a opinião de Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL).
“O apostador que porventura estiver endividado, mas eventualmente joga em um site autorizado pelo Ministério da Fazenda, não vai deixar de jogar. Ele vai migrar para uma das milhares de plataformas ilegais e continuará igual ou até mais endividado”, afirmou.
O dirigente entende que a edição do programa trouxe propostas para melhorar a saúde financeira da população brasileira por meio da renegociação de dívidas, acompanhada de descontos nos juros, além da possibilidade do uso do FGTS. “Mas há pontos extremamente controversos, com potencial até mesmo de piorar o endividamento de algumas pessoas, como o relacionado aos sites de apostas”, disse.
80% das dívidas se referem a despesas diversas e não com apostas
Plínio afirma que impedir os beneficiários de apostar não é uma medida correta. Para ele, um dos motivos é considerar que as apostas estão entre as principais causas do endividamento. “Isso não é verdade e os números provam isso. Segundo o dado mais recente da Serasa Experian, uma das principais referências no assunto no país, 82,8 milhões de brasileiros estavam endividados em março, o equivalente a 49% da população. Nesse mesmo mês, o Sistema de Gestão de Apostas, do Governo Federal, contabilizou quase 10 milhões de CPFs que realizaram apostas nos sites legalizados. Não há como saber quantos desses apostadores estão endividados”, apontou.
Ele segue o raciocínio dos números. “Fazendo uma simetria com o dado geral, supondo que metade dos apostadores estejam, isso significaria 5 milhões de pessoas em um universo de 82,8 milhões, resultando em 6% dos apostadores. Desse grupo, no entanto, seguindo os percentuais da pesquisa, 47% teriam dívidas com bancos e 21% com contas básicas, como água, energia etc. E outros 11% com o setor de serviços. Ou seja, mais de 80% dos casos se referem a despesas diversas e não com apostas”.
Migração para o mercado ilegal
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) reafirma que atribuir o problema às bets e bloquear os apostadores nos sites legalizados são um erro. A proibição de apostas abre mercado ilegal para quem não puder usar as plataformas licenciadas.
De acordo com Plínio, o apostador que porventura estiver endividado, mas eventualmente joga em um site autorizado pelo Ministério da Fazenda, não vai deixar de jogar. “Ele vai migrar para uma das milhares de plataformas ilegais e continuará igual ou até mais endividado”, sentenciou.
Estudos apontam que as apostas representam apenas 0,46% do consumo familiar e não é possível associá-las ao endividamento, na avaliação de Plínio Lemos Jorge. “Infelizmente, essa tem sido uma narrativa difundida em um contexto de ano eleitoral e, ainda, com o reforço de determinados setores da economia, como o varejo. É um consenso que o acesso fácil a um crédito caríssimo, com juros que estão entre os maiores do mundo, tem sido uma das principais molas propulsoras do endividamento das famílias”, disse.
“Se uma pessoa tem dívidas de R$ 10 mil no cartão de crédito e mais R$ 5 mil no cheque especial, o problema não está no gasto médio de R$ 50 por mês em apostas, com uma forma de lazer. Está na bola de neve dos juros que ela fica pagando às instituições financeiras” comentou.

Bloqueio de sites clandestinos
Para ele, o grande desafio do poder regulador, exercido pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), e pela Anatel, responsável por bloquear os sites ilegais, é combater plataformas clandestinas. “Esse trabalho conjunto tem sido desempenhado com sucesso. Para se ter uma ideia, até abril deste ano, foram 39 mil sites bloqueados. O problema é que eles se replicam e a uma velocidade muito rápida. Em alguns casos, depois de derrubada, uma plataforma clandestina consegue ser reativada horas depois” lembrou, reforçando que a proibição de apostas abre o mercado ilegal para os beneficiários no Novo Desenrola Brasil.
Nesse cenário, tanto o governo quanto a indústria, incluindo a ANJL, têm atuado na busca por uma solução efetiva contra esse problema, de acordo com o presidente.
Indagado sobre as razões para tanta disseminação de informações falsas sobre o setor, Plínio disse que há inúmeros fatores que contribuem para isso. “Infelizmente, um deles é o fato de o país ter tido um vácuo regulatório de quatro anos, em que práticas nocivas aos jogadores se disseminaram”.
“Outro componente é uma disputa de poder, nos bastidores, envolvendo setores da economia que perderam algum espaço, por exemplo, no mercado publicitário. Soma-se a isso a tendência da imprensa em focar em casos de apostadores que perderam muito dinheiro jogando, sem, contudo, ser checado se esses descontroles aconteceram nas plataformas legais ou ilegais, complementou.
“E, mais recentemente, sem dúvida, há também o fator eleitoral, que vai pesar bastante até outubro”.
Bets são o bode expiatório durante o processo eleitoral
Segundo ele, o setor não tem dúvidas de que as bets ainda serão muito criticadas durante o processo eleitoral. “O Brasil tem diversos problemas para resolver, em sua maioria históricos, que não se restringem a um governo A ou B. Mas, nesta campanha, as bets estão sendo o bode expiatório de todos eles”, admitiu.
O papel da ANJL, enquanto representante do setor, é rebater as informações inverídicas e mostrar à população que indústria oferece serviços de entretenimento como outro qualquer, de acordo com Plínio. “E, claro, continuar divulgando a importância de se jogar com responsabilidade, sem exageros, encarando as apostas como um momento de diversão, não como forma de ganhar dinheiro” avaliou.
Sobre os recentes dados apresentados pela CNC de que as bets retiraram quase R$ 144 bilhões do mercado, Plínio diz que não sabe de onde saiu esse número e que ele não faz o menor sentido.
“Esses números estão descolados da realidade do mercado. Também não sabemos as reais intenções por trás desses dados. Assim como todos os setores, respeitamos o comércio, a indústria, o setor de serviços etc. Agora, é natural que a gente exija o devido respeito também, o que não vem acontecendo com essas divulgações indiscriminadas, com informações enviesadas ou sem respaldo fático”, disse.
Recálculo de rota do presidente Lula
No discurso após a assinatura da Medida Provisória que instituiu o Novo Desenrola Brasil, o presidente Lula não atacou as bets, como vinha fazendo. Segundo Plínio, nos últimos dias, a ANJL intensificou a interlocução com o governo, tanto com o Planalto quanto com o Ministério da Fazenda, demonstrando com dados que essa narrativa propagada por pesquisas não se sustenta.
“Acredito que isso tenha contribuído muito para um recálculo da rota pelo presidente Lula. Dados de diversas instituições renomadas, como a Pay4Fun e a LCA Consultoria, mostram que os gastos com apostas equivalem a uma parte ínfima do orçamento dos brasileiros. Paralelamente, a contribuição do setor com a arrecadação do país tem sido essencial para o governo, que precisa desses recursos que deixaram de ser arrecadados por tantos anos. Fora os empregos e as rendas que as empresas que se instalaram corretamente no Brasil estão gerando. Ou seja, há diversos impactos positivos para a economia, mas isso raramente é citado”.
Para ele, é importante levar ao mercado informações verdadeiras e mostrar isso ao governo. “A ANJL tem feito isso por meio da imprensa, das redes sociais, de palestras. Nossa interlocução com o governo é permanente. Mas sabemos que as forças contrárias ao setor continuarão divulgando as informações, ou melhor, desinformações que bem entenderem”.
“Nosso papel é combater esse cenário de forma contundente, por meio de diversas frentes de atuação. Uma coisa é certa: o Brasil não pode retroceder na regulamentação que conseguiu concretizar a duras penas. Temos, hoje, um dos arcabouços regulatórios mais rigorosos do mundo, cujo principal objetivo é dar segurança aos apostadores e combater o mercado ilegal. Acabar com a indústria regulamentada seria jogar a população brasileira nas mãos das plataformas clandestinas, que não têm nenhum compromisso com o jogador nem com a sua saúde mental e financeira”, concluiu.