IBIA: Proibição das bets no Brasil levará o mercado à clandestinidade e prejudicará o combate à manipulação de resultados
Relatório da International Betting Integrity Association (IBIA) alerta que a proibição das bets no Brasil pode ampliar o mercado clandestino. Isso reduzirá a proteção aos consumidores e enfraquecerá o combate à manipulação de resultados. Segundo estimativas da H2 Gambling Capital citadas no estudo, cerca de 60% da atividade hoje atendida pelo mercado regulamentado poderia migrar para operadores ilegais. Isso elevaria o mercado clandestino de cerca de R$ 17 bilhões para R$ 42 bilhões. A entidade destaca que, em menos de dois anos, o país autorizou mais de 80 operadores e implantou mecanismos de identificação, autoexclusão e monitoramento de apostas suspeitas.
A IBIA sustenta que a alta de alertas envolvendo esportes brasileiros — de uma média anual de 11 entre 2021 e 2024 para 25 em 2025 — reflete maior capacidade de detecção e comunicação, o que não acontece com o mercado operando na ilegalidade. Para a associação, retirar as apostas do ambiente regulado dificultaria o rastreamento de contas, o compartilhamento de informações com autoridades e a investigação de possíveis fraudes. O relatório recomenda que o Congresso reconsidere a proibição, preserve o atual sistema de integridade, concentre a fiscalização em operadores offshore não licenciados e aperfeiçoe a regulamentação com base em avaliação de impacto e diálogo com o setor.
IBIA: Proibição das apostas no Brasil levará o mercado à clandestinidade e prejudicará o combate à manipulação de resultados
A International Betting Integrity Association (IBIA) realizou um estudo baseado em evidências sobre o que o Brasil pode perder caso a proibição das bets seja implementada. Com base em avaliações regulatórias, estimativas de mercado e dados sobre apostas suspeitas, o CEO da IBIA, Khalid Ali, examina as consequências para a integridade do esporte, os consumidores e o mercado regulamentado.
Em 25 de setembro, o Brasil impôs uma proibição nacional das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online, apenas 21 meses após a abertura de seu mercado regulamentado de apostas. A medida está agora sendo implementada, enquanto o Congresso avalia se ela deve se tornar permanente.
O regime regulatório brasileiro, bem como as licenças e portarias associadas destinadas a proteger os consumidores, monitorar a atividade de apostas e resguardar a integridade do esporte, está em vigor há menos de dois anos. A proibição agora ameaça desfazer esse progresso, levando a atividade de apostas para fora da supervisão regulatória e enfraquecendo os mecanismos criados para detectar e prevenir a manipulação de resultados.
É por isso que pedimos ao Congresso que reconsidere a Medida Provisória 1.394 por meio de uma avaliação, baseada em evidências, de seus riscos e impactos, apoiada por um diálogo aberto com o setor. A cooperação entre autoridades públicas, entidades esportivas e organismos independentes de monitoramento da integridade deve ser mantida. Ao mesmo tempo, os esforços de fiscalização devem se concentrar no bloqueio de operadores offshore não licenciados, a fim de proteger os consumidores, as receitas tributáveis e a integridade do mercado.
O que o Brasil construiu e o que a proibição coloca em risco
Em menos de dois anos, o Brasil autorizou mais de 80 operadores, introduziu requisitos de identificação de clientes, combateu sites de apostas e canais de pagamento ilegais e estabeleceu um sistema centralizado de autoexclusão. Crucialmente para o esporte, os operadores licenciados passaram a ser obrigados a monitorar apostas suspeitas, comunicar preocupações e integrar-se a organizações nacionais ou internacionais de monitoramento da integridade esportiva.
A avaliação comparativa da IBIA sobre marcos regulatórios atribui ao Brasil uma nota de 77 em 100, entre Portugal (68) e a Grã-Bretanha (86). Para um mercado tão jovem, isso representa um progresso significativo.
O valor do marco regulatório brasileiro está na inteligência que ele gera. Padrões de apostas suspeitas podem ser identificados, avaliados e compartilhados com reguladores, entidades esportivas e autoridades policiais. Sem um mercado licenciado em funcionamento, grande parte dessa inteligência se torna mais difícil de obter, enfraquecendo a capacidade de detectar e investigar possíveis manipulações.
Proibição não elimina a demanda por apostas
A H2 Gambling Capital, empresa líder em inteligência de mercado e dados do setor, estima que, sem uma alternativa legal, cerca de 60% da atividade atualmente atendida pelo mercado regulamentado brasileiro — equivalente a aproximadamente R$ 25 bilhões — poderia migrar para operadores não licenciados. Com base nisso, o mercado ilegal poderia crescer de cerca de R$ 17 bilhões para aproximadamente R$ 42 bilhões.
As consequências vão muito além da perda de receita tributária. Os consumidores poderiam acabar apostando com operadores fora do alcance regulatório do Brasil, sem as mesmas verificações de identidade, salvaguardas de Jogo Responsável ou obrigações de comunicação. Ao mesmo tempo, as autoridades perderiam o acesso às informações que os operadores licenciados são obrigados a fornecer.
Portanto, a proibição enfraqueceria tanto a proteção ao consumidor quanto a inteligência disponível para proteger o esporte.
Consequências para a integridade
As implicações para a integridade do esporte são particularmente graves. Em 2025, o primeiro ano completo do mercado regulamentado, a IBIA registrou 25 alertas de apostas suspeitas envolvendo esportes brasileiros, em comparação com uma média anual de 11 alertas entre 2021 e 2024.
Esse aumento não deve ser interpretado como evidência de que a regulamentação tornou o esporte brasileiro menos seguro. Pelo contrário, ele é compatível com uma melhoria na detecção e na comunicação dentro de um mercado em que os operadores licenciados eram obrigados a identificar e reportar atividades suspeitas.
Menos alertas após a proibição não significará necessariamente menos apostas suspeitas. Pode simplesmente significar menos informações sobre elas.
Essa distinção é importante. Os alertas de apostas suspeitas não medem a extensão da manipulação de resultados. Eles refletem a atividade que os sistemas de monitoramento detectam e comunicam. Se as apostas migrarem para operadores fora do alcance regulatório, a capacidade de identificar padrões suspeitos, rastrear contas e compartilhar inteligência com investigadores ficará significativamente mais fraca.
O perigo não é apenas que as apostas suspeitas continuem, mas que se tornem mais difíceis de detectar e investigar.
Resposta é a regulamentação, não a proibição
Depois de quase duas décadas trabalhando com a integridade das apostas, uma lição é clara: a questão decisiva não é se as apostas existem. Mas se operam dentro de uma estrutura em que os riscos possam ser identificados, monitorados e enfrentados. A proibição não elimina esses riscos. Ela os torna mais difíceis de detectar, investigar e abordar. O mercado regulamentado brasileiro não estava isento de fragilidades. Publicidade, proteção ao consumidor, supervisão dos operadores e fiscalização contra prestadores ilegais exigiam maior atenção. Esses são argumentos para aprimorar a regulamentação, não para abandoná-la.
A IBIA insiste que o Congresso reconsidere a proibição e permita que o futuro do mercado brasileiro de apostas seja definido pelo processo legislativo ordinário. Isso deve ser orientado por um diálogo aberto com o setor, por uma avaliação clara dos riscos e por uma avaliação de impacto publicada. O atual arcabouço de integridade, incluindo o monitoramento de apostas suspeitas, a comunicação de ocorrências e a cooperação com as autoridades, deve ser preservado. A fiscalização deve se concentrar nos operadores não licenciados, enquanto os danos relacionados ao jogo devem ser tratados por meio de medidas direcionadas dentro do mercado regulamentado.
O Brasil investiu na construção dessas salvaguardas. A prioridade agora deve ser fortalecê-las, e não desmontar o marco regulatório que as torna possíveis.