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Será que o afã da corrida atrás do ouro pelo patrocínio das bets está em queda?

| By Kyle Goldsmith
Os operadores estão suspendendo os patrocínios das bets no Brazil em pleno aumento de custos em outros lugares. Especialistas analisam a tendência e seu impacto no futebol local.
Brasil patrocínio bets

Os patrocínios das bets no Brasil se tornaram uma corrida armamentista nos últimos anos, com as marcas dos operadores quase onipresente no futebol. Mas com o início do campeonato brasileiro da primeira divisão esta semana, seis das 20 equipes não têm, no momento, um patrocinador em seus uniformes. Agora em seu segundo ano de bets legalizadas, será que a bolha do patrocínio ao jogo no Brasil estourou?  

A jornada do Brasil rumo à legalização das apostas levou à proliferação de sites de apostas. Alguns especialistas chegaram a afirmar que o país tinha o maior acesso a apostas online de qualquer mercado do mundo. O patrocínio virou um campo de batalha importante, sobretudo no histórico campo do futebol brasileiro. Na última temporada, 19 dos principais clubes do Brasil tinham uma plataforma de apostas como patrocinador principal. O time restante, o RB Bragantino, é patrocinado pela Red Bull. 

Fellipe Fraga, diretor comercial do operador local regulamentado EstrelaBet, aponta os últimos cinco anos de apostas no mercado negro como fundamentais para esse domínio absoluto do patrocínio de apostas no futebol. “O que aconteceu nos últimos anos foi que muitas empresas competiram pelo mesmo espaço”, disse Felipe à iGB. “Devido à falta de regulamentação, muitas empresas tinham dinheiro para iniciar um negócio e investir em patrocínios para criar reconhecimento da marca.” 

Valores do patrocínio disparam 

Com tanta concorrência, o preço dos contratos de patrocínio no Brasil disparou. A VaideBet anunciou um patrocínio de R$ 370 milhões (US$ 71,2 milhões) ao Corinthians em janeiro de 2024, que, na época, foi o maior patrocínio da história do futebol brasileiro. Em maio daquele ano, o Flamengo e a Pixbet quebraram esse recorde com uma negociação que aumentaria os cofres do clube em até R$ 470 milhões (US$ 90,4 milhões). Foi uma renegociação de um acordo feito no início daquele ano. 

A Betano, de propriedade da Kaizen Gaming, também se consolidou nos esportes brasileiros, assumindo o patrocínio da Série A, após fazer o mesmo movimento na Argentina. A Betano também patrocinou a Copa América, o maior torneio internacional da América do Sul. 

Os principais clubes brasileiros receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets em 2025, já que os operadores estavam dispostos a pagar preços elevados, explica André Santa Ritta, sócio da Pinheiro Neto Advogados. “As marcas que o público as conhecesse para entrarem no mercado,” afirma André. E essa era a única razão para eles pagarem aquela quantia enorme de dinheiro aos clubes esportivos e, principalmente, aos clubes de futebol.” 

Rachaduras começam a aparecer 

Mas, à medida que 2024 avançava e o Brasil se aproximava da regulamentação das apostas, a primeira rachadura apareceu quando o contrato entre o Corinthians e a VaideBet foi encerrado de maneira abrupta em junho daquele ano. O patrocínio, que tinha duração prevista de três anos, foi rescindido após denúncias de corrupção relacionadas às negociações do contrato. Quando a regulamentação entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025, apenas operadores licenciados podiam patrocinar no Brasil. O fato de que havia apenas 14 operadores com licenças completas à época causou preocupação entre alguns especialistas.  

Mas o sistema judicial foi compreensivo e a operadora Esportes da Sorte recebeu autorização especial para operar em todo o país antes de receber uma licença completa. O operador havia firmado contratos com os clubes de futebol Corinthians e Grêmio, e o tribunal decidiu que ele precisava de uma licença preliminar para honrar esses patrocínios. 

O maior indicador até agora do declínio dos patrocínios surgiu em agosto de 2025, quando o patrocínio recorde da Pixbet ao Flamengo foi rescindido precocemente, em meio a rumores de problemas financeiros no operador. Muitos especularam que o operador havia pagado muito pelo negócio, exagerando em suas tentativas de ganhar participação no mercado regulamentado. 

Também foi relatado que a Alfa Entertainment não havia cumprido com os pagamentos de seus patrocínios de futebol, aumentando ainda mais a suspeita de que os operadores estivessem fechando contratos além de suas possibilidades financeiras. 

Por que essa queda? 

A renegociação do patrocínio da Pixbet ao Flamengo foi uma virada de chave importante. O valor do patrocínio praticamente triplicou antes de ser cancelado. Isso também aumentou as expectativas dos clubes de futebol em relação ao preço que poderiam cobrar das empresas de apostas. 

Felipe observa que os clubes da segunda divisão do Brasil tiveram dificuldades para conseguir patrocínios de apostas em 2025, e muitos conseguiram fazê-lo apenas no segundo semestre do ano. Essa tendência continuou em 2026, com seis clubes começando a temporada sem patrocinador de bets. “O desafio era que agora eles tinham que procurar diferentes tipos de indústrias para patrocinar o clube, por um valor muito menor”, diz Felipe. 

Udo Seckelmann, head de gaming e crypto do escritório de advocacia Bichara e Motta Advogados, disse à iGB que esperava que a popularidade dos patrocínios diminuísse. Essa tendência pode ser problemática para vários clubes que dependem de patrocínios de apostas. 

“Isso era esperado desde o primeiro dia”, explica Udo. “Acho que os clubes brasileiros estão um pouco surpresos com isso, porque ainda estão pedindo grandes patrocínios. Mas, com exceção dos cinco maiores operadores do Brasil, os demais começarão a reduzir o valor dos patrocínios aos clubes. É algo que vai acontecer.” 

Clubes brasileiros em situação muito melhor graças aos patrocínios das bets

Udo descreve a corrida dos operadores para conquistar participação de mercado como uma “corrida pelo ouro”, embora considere que ela tenha sido benéfica para o esporte brasileiro. “Se analisarmos o Brasil antes da regulamentação das apostas esportivas e compararmos com a situação atual, os clubes brasileiros estão em uma posição muito melhor agora do que antes, especialmente em relação à América Latina”, afirma Udo.  

“Você verá que os clubes brasileiros estão muito mais ricos e têm times melhores em comparação com os clubes argentinos, que historicamente tinham times melhores ou iguais aos brasileiros. A regulamentação das apostas esportivas pode ter representado um grande marco para que clubes brasileiros e operadores de apostas começassem a investir.” 

Empresas avaliando investimentos 

Outro aspecto a considerar é onde o patrocínio se encaixa no planejamento financeiro dos operadores, sobretudo com o aumento dos impostos. O presidente Lula aprovou recentemente um aumento gradual do imposto para 15% do GGR, que é a receita bruta de jogos, a partir de 2028. Juntamente com outros impostos, a alíquota efetiva está se aproximando de 50% para os operadores licenciados. Outras más notícias também podem estar por vir, já que políticos avaliam a possibilidade de implementar um imposto adicional de 15% sobre os depósitos. O marketing costumar ser uma das primeiras áreas a sofrer cortes quando se leva em conta novos aumentos de impostos. 

O analista brasileiro de iGaming Elvis Lourenço afirma que os operadores passaram a analisar mais de perto suas abordagens de marketing, de modo a avaliar se os patrocínios exorbitantes dos anos anteriores ainda valem a pena. “Existem 80 operadores e quase 200 marcas, então acho que todos querem uma fatia do bolo”, observa. “Mas agora as coisas estão mudando. Os impostos estão aumentando e agora todos os operadores estão fazendo as contas. Esse tipo de patrocínio estava um pouco inflacionado, porque todos os clubes de futebol aumentaram seus preços.” 

André concorda, acrescendo: “Acho que o mercado está chegando a uma realidade em que não acho sustentável manter esse nível de patrocínio proveniente dos operadores de apostas por tanto tempo, porque o preço era muito alto.” 

Será que o patrocínio no Brasil são um bom retorno de investimento? 

Felipe levanta outra questão interessante: o apelo da liga brasileira de futebol é suficiente para justificar os níveis de gastos com patrocínios observados nos últimos tempos? Ele sugere que falta a exposição global de outras divisões, como a Premier League inglesa, que ostenta índices de audiência muito superiores aos da Série A brasileira. 

“Para o Reino Unido, faz sentido, porque o mundo todo assiste”, diz ele. “É um sonho, porque todo mundo assiste, você encontra as camisetas em todo o mundo. É uma estratégia comprovada e funciona para clubes que têm apelo global. Mas para o futebol brasileiro, não funciona assim. Para uma marca patrocinar um clube europeu, é uma estratégia global. No Brasil, é uma estratégia local.” 

Felipe insiste que o mercado de patrocínio do futebol está “encolhendo” e sugere que os operadores voltarão seu foco para outros esportes que estão crescendo rapidamente em popularidade no Brasil. Ele acredita que ainda existem oportunidades interessantes por aí. “Agora, o desafio é como as empresas distribuirão o dinheiro para marketing em diferentes situações, em diferentes mercados e diferentes grupos. Existem fãs de automobilismo, fãs do UFC, fãs de futebol americano. Eles são muito populares no Brasil agora. É um momento de mudança, e o futuro é um bom lugar para se estar”, afirma.  

Os ricos podem ficar mais ricos? 

A Betano é a atual líder de mercado, e muitos atribuem isso aos seus gastos extensivos com patrocínios, tanto antes quanto depois da regulamentação do mercado no Brasil. Após o término do contrato da Pixbet com o Flamengo, a Betano assumiu o patrocínio em um acordo avaliado em R$ 250 milhões por ano. 

O diretor-geral da H2 Gambling Capital, Ed Birkin, disse anteriormente à iGB que a Betano poderia cobrir o custo anual do patrocínio ao Flamengo com 13 dias de receita operacional. Em contrapartida, o contrato anual da Pixbet equivalia a 72 dias de receita operacional no Brasil. O consenso é que, enquanto os operadores de nível 2 e 3 vão reduzir os patrocínios por medo de se sobrecarregarem, as empresas de nível 1 vão procurar aumentar a sua vantagem e continuar com gastos significativos em marketing esportivo. 

“Acredito que há uma grande diferença no Brasil entre os operadores grandes e os médios ou pequenos”, diz Udo. “O Brasil é muito orientado para o marketing, no sentido de que, para obter uma participação de mercado relevante no Brasil, você precisa conseguir criar consciência. Por isso, às vezes, eles vão pagar mais do que podem por causa disso, especialmente os operadores de médio e pequeno porte.” 

Felipe, André e Elvis concordam que os operadores menores terão que reduzir os patrocínios. “O operador médio no Brasil está lutando para sobreviver hoje”, acrescenta André. “Eles estão sofrendo, então não estão muito dispostos a pagar muito dinheiro para aparecer em jogos de futebol.” 

Elvis acrescenta: “Acho que os operadores de primeira linha continuarão investindo nisso.”  

A bolha de patrocínio das bets no Brasil estourou? 

O que está claro é que muitos no setor esperavam que as atraentes valorizações de patrocínio diminuíssem, especialmente diante de um ambiente regulatório cada vez mais difícil para os operadores. A corrida pelo ouro a que Udo se refere veio após anos de incerteza regulatória e acesso ao mercado negro de apostas, forçando os operadores a fechar contratos agressivos e, às vezes, insustentáveis, enquanto buscavam competir pela notoriedade da marca. 

Seria incorreto dizer que o patrocínio das bets está terminando, já que a grande maioria dos clubes da Série A começará esta temporada com um patrocinador de bets em destaque em seus uniformes. Porém, a dinâmica certamente está mudando, passando a exigir uma abordagem mais cuidadosa, ponderada e criativa por parte dos operadores de médio e pequeno porte, à medida que eles reavaliam como romper a disparidade cada vez maior entre elas e os gigantes que lideram o mercado. 

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