Lula contra as bets: Em campanha pela reeleição, presidente adota discurso duro sobre apostas para conquistar evangélicos e eleva o tom ao desacreditar o setor
Nos últimos meses, o presidente Lula intensificou de forma significativa sua ofensiva contra as bets. Em discursos e entrevistas, ele vem reforçando afirmações de uma parcela mais conservadora da sociedade de que as apostas se tornaram um problema social. Baseado em informações não comprovadas, Lula associa as apostas ao endividamento e precarização das relações de trabalho.
Lula tem repetido que as bets representam uma “desgraça da mentira”, criticando especialmente o impacto sobre jovens e trabalhadores de baixa renda. O presidente afirmou que se dependesse dele, acabaria com as bets. Em discurso no Ministério do Trabalho, classificou as apostas esportivas como uma armadilha financeira para os trabalhadores.
Em entrevista a dois podcasts, Lula voltou à carga contra as bets. “Se ninguém me mostrar uma razão social dessas bets continuarem, nós temos que acabar com elas”, afirmou.
Embates no Congresso
Lula afirmou saber da existência da “bancada das bets” no Congresso, sugerindo que o setor exerce influência política para defender seus interesses. Diante desse cenário, Lula entende que a proposta de extinguir o setor será difícil. “Eu sei que tem bancada das bets no Congresso. Mas é uma briga que nós vamos ter que fazer porque a sociedade não pode ser desestruturada por conta de uma coisa que a gente pode controlar”, disse.
Embora não verbalize, há outra preocupação de Lula. O caixa do governo foi engordado no primeiro semestre de 2026 com quase R$ 7,3 bilhões. Em 2025, o Brasil arrecadou quase R$ 10 bi com a atividade, fora taxas de outorga e de fiscalização. Ao acabar com a atividade, essa quantia deixa de ser recebida e pode comprometer ainda mais o orçamento.
A preocupação do governo também se apoia em dados recentes divulgados pelo Ministério da Fazenda. Segundo o ministro Dario Durigan, mais de 5 milhões de brasileiros já estão impedidos de apostar.
Além do combate jurídico e regulatório, há um componente político-eleitoral na estratégia de Lula. O presidente tem usado o tema das bets para reforçar sua defesa do trabalho formal. Além disso, critica modelos econômicos que, segundo ele, exploram a vulnerabilidade financeira da população.
Tratando com ministérios
A retórica contra as bets se tornou parte de sua narrativa eleitoral, conectando o combate ao setor à agenda de proteção social e enfrentamento ao endividamento.
O presidente disse que o governo está tratando o assunto com os ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Justiça. Segundo O objetivo de Lula é avaliar medidas que permitam conter os efeitos das bets sobre a sociedade. “Estamos estudando com os ministérios para que a gente tome uma atitude”, afirmou.
Mercado ilegal
A posição de Lula contra as bets esbarra em uma questão delicada. Proibir a atividade não acabará com as apostas esportivas e jogos online. Irá direcioná-las para o mercado ilegal, que alcança entre 38% e 44% do total, segundo estudo da LCA e Instituto Locomotiva.
O consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Bernardo Freire, afirmou que a proibição das bets migrará os apostadores para plataformas clandestinas. Para ele, proibir as empresas licenciadas é uma “conivência com o crime”.
Em evento da ANJL com o Grupo Globo, ele disse que acabar com as bets irá reforçar o mercado ilegal. “Se hoje 40% da população já está nesse mercado, a proibição levará os 60% que jogam em plataformas licenciadas para as ilegais”, disse.