Confederação Nacional do Comércio volta a culpar as bets pelo endividamento das famílias brasileiras
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) voltou a acusar as bets pelo endividamento das famílias no Brasil. Segundo a entidade, os gastos com apostas online cresceram 500% em apenas três anos, passando de praticamente zero para mais de R$ 30 bilhões mensais em março de 2026. Esse montante, que antes iria para o pagamento de contas essenciais, atualmente sofre um “efeito substituição”, deteriorando o consumo real. É o que aponta a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), relativo ao período de maio de 2021 a março de 2026.
Ao falar de R$ 30 bilhões em gastos das famílias no mês de março de 2026 com apostas, a CNC comete um erro absurdo ou mente. O governo divulgou nesta terça-feira (28) a arrecadação do setor no mês de março, que alcançou R$ 859 milhões. O valor representa 12% sobre o GGR, o que uma simples calculadora leva à quantia de R$ 7,15 bilhões de GGR. Se a CNC quis dizer que os brasileiros apostaram os R$ 30 bi, deveria dizer também quanto desse valor voltou na forma de prêmios para os apostadores.
Números não batem
Outro fato que a CNC não levou em consideração em seu “estudo” é o fato de que as bets existem há muito mais tempo do que desde o início do mercado regulado. Ao falar que as apostas cresceram 500% em apenas três anos, a entidade comete outro equívoco. Só existem números oficiais da Receita Federal a partir de janeiro de 2025 e muito antes disso o setor informal movimentava valores muito próximos da média atual.
A entidade afirma que cerca de 269 mil famílias se tornaram inadimplentes em razão dos gastos com apostas. Entretanto, números levantados para o setor mostram que a atividade não é responsável por gastos exorbitantes por parte dos apostadores.
A Pay4Fun, uma das principais provedoras de pagamentos para o setor, indica que cerca de 28 milhões de brasileiros apostaram em 2025. Desse total, mais da metade (53,3%) tiveram gastos de até R$ 50 por mês. Aqueles que desembolsaram mais de R$ 1 mil representam 19,5% do total.
Estudo da LCA Consultoria aponta ainda que os gastos com apostas representam cerca de 0,46% do consumo das famílias brasileiras, com gasto líquido médio mensal de R$ 122 por apostador, equivalente a 3,3% da renda desse público.
IBJR
Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou que os números da CNC estão completamente desalinhados com os dados do governo.
“Dados Oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas indica que o balanço oficial do primeiro ano completo do mercado regulado apontou que a receita bruta total (GGR) das empresas em 2025 foi de R$ 37 bilhões. Este valor, que corresponde ao arrecadado descontando os prêmios pagos aos apostadores, evidencia que a estimativa da CNC de R$ 240 bilhões destinados às apostas é insustentável na realidade”, afirmou em nota.
ANJL
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os números, “que não condizem com dados oficiais do governo e do setor. Além disso, desconsideram a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros. Recortes amostrais não podem se sobrepor às bases públicas disponíveis nem sugerir uma relação causal direta entre apostas online e inadimplência do cliente”.
Segundo a ANJL, “o endividamento no país é um problema histórico e estrutural, associado principalmente ao alto custo do crédito, aos juros elevados e à pressão do custo de vida sobre a renda.
No crédito rotativo do cartão, por exemplo, milhões de brasileiros seguem expostos a uma das modalidades mais caras do sistema financeiro.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, diz que não adianta proibir a atividade, mas é importante estabelecer medidas de regulamentação de publicidade e acesso.
“Não somos contra apostas online, somos a favor de qualquer atividade formalmente estabelecidas. Não entendemos que seja necessariamente danoso para a economia, mas qualquer excesso pode ser prejudicial”, conclui o economista.