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Bets levam ao governo parecer que contesta impacto no endividamento familiar

| By Gildo Mazza
Documento da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) aponta falhas relevantes em estudo da CNC e diferenças gritantes nos números na Confederação Nacional do Comércio.
ANJL contesta parecer CNC

A indústria de apostas esportivas levou ao governo um parecer que contesta estudos associando bets ao aumento do endividamento e da inadimplência das famílias brasileiras. O documento foi encomendado pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e aponta falhas no estudo produzido pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), que atribuía às apostas uma piora nas finanças domésticas.

Segundo a Coluna Radar Econômico da Veja, a crítica central do documento é consistente. A CNC apresenta como um exercício de “diferenças em diferenças” uma comparação entre períodos anteriores e posteriores a janeiro de 2023, mas sem um grupo de controle. Na prática, o modelo não oferece um contrafactual capaz de mostrar o que teria acontecido com o endividamento caso as bets não tivessem avançado no Brasil.

Coincidência temporal não comprova culpa das bets

Isso significa que outras mudanças ocorridas no mesmo período — como juros, inflação, crédito, emprego e políticas de transferência de renda — podem ter sido capturadas pela variável atribuída às apostas. Com apenas 59 observações mensais agregadas, o estudo permite apontar uma coincidência temporal, mas não comprovar que as bets foram a causa da mudança.

O parecer, que será apresentado ao governo, acerta ao desmontar essa alegação de causalidade. A conclusão, porém, tem um limite importante. Mostrar que a CNC não conseguiu provar o efeito das apostas não equivale a demonstrar que esse efeito não existe. O documento contratado pela ANJL não refaz as estimativas, não apresenta uma base alternativa nem constrói um estudo capaz de medir de forma independente o impacto das plataformas sobre o orçamento das famílias.

Uma verificação feita pelo Radar Econômico encontrou ainda incompatibilidades entre coeficientes, erros-padrão e marcações de significância estatística nas tabelas da CNC. Em um dos casos, por exemplo, um coeficiente de -0,305 aparece acompanhado de erro-padrão de 0,348 e, ainda assim, recebe três estrelas, indicação normalmente reservada a resultados significativos ao nível de 1%. Os números publicados não sustentam essa classificação.

A inconsistência reforça as dúvidas sobre o estudo original, mas também expõe uma fragilidade do parecer da ANJL. Algumas dessas marcações foram reproduzidas sem recalculá-las. O próprio documento ressalva que não realizou uma auditoria da base da CNC. E não apresenta código, replicação econométrica ou apêndice estatístico.

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O parecer também avança para conclusões regulatórias que não decorrem diretamente da crítica metodológica. Entre elas estão a defesa da publicidade como instrumento para direcionar apostadores às plataformas autorizadas e a tese de que maiores restrições favoreceriam o mercado ilegal. São argumentos relevantes para o debate, mas sustentados principalmente por estudos e estimativas ligados ao próprio setor.

A disputa, portanto, está longe de resolvida. A indústria encontrou uma falha verdadeira e importante no principal estudo usado por seus críticos, mas tenta extrair dela uma conclusão maior do que os os dados permitem. O parecer enfraquece a afirmação de que a CNC comprovou o impacto das bets sobre o endividamento. Não absolve, contudo, as apostas de produzir esse impacto.