Lula intensifica ataques às bets na reta final de sua campanha à reeleição
Na reta final da campanha presidencial de 2026, o presidente Lula elevou de forma significativa o tom contra as bets. Ele transformou o tema em um dos principais eixos de sua estratégia eleitoral. Em diferentes eventos pelo país, Lula afirmou estar “decidido” a acabar com a atuação dessas empresas no Brasil. Ele alega que o modelo atual provoca endividamento, estimula comportamentos compulsivos e distorce a relação entre futebol, torcedores e clubes. Esta prevista para esta semana a edição de uma Medida Provisória restringindo a atuação das casas de apostas e a possível proibição de jogos de cassinos online.
As declarações mais contundentes ocorreram nos dias 18 e 19, em atos de campanha em Guarulhos (SP) e Florianópolis (SC). Em ambos, Lula classificou as apostas online como “uma doença”. Ele relatou casos de brasileiros que venderam bens, esconderam dívidas da família e chegaram a situações extremas devido ao vício em jogos. Segundo ele, o governo pretende enfrentar o problema com medidas duras. Isso inclui a proibição total das bets — tema que, segundo ele, vem sendo discutido há meses com a equipe econômica e o Banco Central.
Manifesto dos clubes de futebol
O discurso ganhou força após a divulgação de um manifesto assinado por grandes clubes do futebol brasileiro. Eles defendem a manutenção das bets e afirmam que uma eventual proibição poderia significar o “fim do futebol” no país. Lula reagiu de imediato, chamando a alegação de “mentira” e lembrando que clubes e a própria Seleção Brasileira conquistaram títulos mundiais antes da expansão das bets. “O futebol não pode sobreviver às custas do povo pobre”, disse. Ele argumentou que torcedores já contribuem financeiramente ao esporte e não deveriam ser pressionados a apostar para sustentar receitas dos times.
O presidente também citou nominalmente clubes como Flamengo, Corinthians, Santos, Grêmio e Internacional, afirmando que pretende convocar dirigentes para discutir o impacto das apostas no esporte e combater irregularidades como lavagem de dinheiro. Ele reforçou que o setor, regulamentado em 2024 pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), passou a movimentar cifras bilionárias e influenciar diretamente o ambiente esportivo, a publicidade e o comportamento de jovens.
Além das críticas ao setor, Lula conectou o debate das bets ao tema do endividamento da população. Ele tem afirmado que a prática tem afetado especialmente jovens sem renda estável. Em Santa Catarina, o presidente disse que vê as apostas como um dos fatores que agravam a crise financeira das famílias.
O endurecimento do discurso ocorre em meio à disputa direta com Flávio Bolsonaro, seu principal adversário na corrida presidencial. Sem citar o nome do candidato, Lula afirmou que o rival quer vencer para “tirar o pai da cadeia”, enquanto ele busca a reeleição para “manter Jair Bolsonaro preso”. O tema das bets passou a integrar uma narrativa ampla de combate ao que Lula chama de “irregularidades” e “abusos”.
A campanha petista avalia que a pauta das apostas mobiliza setores sensíveis da sociedade — especialmente famílias afetadas por dívidas. A expectativa é que o tema continue central nos últimos dias antes do primeiro turno. O governo prepara uma medida provisória ainda nesta semana, embora o desenho final da proposta não esteja definido.
Divisão entre Planalto e Fazenda
A proibição das apostas online por meio de uma Medida Provisória não é consenso no governo. Enquanto o Palácio do Planalto – Lula e a Secretaria de Comunicação – defende as restrições, o Ministério da Fazenda reluta em aceitar mudanças. A Pasta entende a dinâmica das bets e teme a redução da arrecadação gerada pelo setor.
As restrições propaladas por Lula têm foco eleitoreiro e o presidente tenta recuperar popularidade, com o crescimento da candidatura de seu principal oponente.
Já a equipe econômica está de olho nos cofres públicos e no orçamento de 2027, uma vez que a receita das bets está prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Uma preocupação adicional é o reajuste do Bolsa Família. Ele terá custo de mais de R$ 20 bilhões e não se sabe de onde virá o financiamento desse aumento. Além disso, a Fazenda analisa o impacto financeiro da medida. Além da queda da arrecadação, espera-se uma possível judicialização das restrições. Com o fim das bets ou a proibição dos jogos online, o governo teria de ressarcir as empresas que acreditaram na regulamentação.