Lula põe ofensiva de combate às bets no centro da campanha e quer acabar com jogos de cassino online
O presidente Lula colocou o combate às bets no centro da sua campanha à reeleição e quer vetar os cassinos online. Auxiliares do chefe do governo veem uma medida contra essas empresas como iminente, salvo uma mudança inesperada na disposição do presidente. Aliados do petista afirmam que ele está determinado a tomar uma atitude enérgica contra essas empresas, com restrição severa ou total a suas atividades.
Segundo noticiado pela Folha, mesmo no cenário menos restritivo, essas pessoas apostam em uma proibição do jogo online. Elas dizem, porém, que a decisão só será sacramentada a partir da volta de Lula voltar da Assembleia-Geral da ONU. A vertical é responsável pela maior parte do faturamento das plataformas de apostas.
Esses jogos consistem em um cassino online, com jogos de azar digitais sem relação com eventos do mundo real – diferentemente das apostas em eventos esportivos, que dependem de resultados de partidas de futebol, por exemplo.
Bets sem regras durante o governo Bolsonaro
As apostas online foram autorizadas na gestão Temer, sendo regulamentadas por Lula, após passarem o mandato de Bolsonaro sem regras. O mercado regulado, com permissão de atuação para 85 empresas mediante o pagamento de uma outorga de R$ 30 milhões, começou em 2025, após um período de transição.
As bets são apontadas por aliados de Lula como parte da explicação para os atuais níveis de endividamento da população. Em 2025, as famílias teriam perdido R$ 62,5 bilhões para as bets, segundo estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
Entretanto, esses dados do Comsefaz não condizem com a realidade, de acordo com o governo federal. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) informou que o GGR das bets em 2025 alcançou R$ 37 bilhões.
Integrantes do governo que participam das discussões apontam obstáculos para a proibição total e mesmo para restrições a essas atividades econômicas. Por isso, ressalvam que ainda não é possível ter certeza sobre qual decisão será tomada.
Um dos pontos levantados é que as bets legalizadas pagaram uma taxa de R$ 30 milhões para funcionar por cinco anos. A proibição agora abriria uma batalha judicial. Haveria o risco, por exemplo, de o Executivo precisar indenizar as plataformas por elas não poderem exercer suas atividades durante todo o tempo contratado.
Mercado ilegal irá desmoralizar o governo
Há uma preocupação sobre como garantir que os serviços que forem proibidos fiquem realmente indisponíveis em vez de apenas caírem na ilegalidade. Seria desmoralizante para o governo, na visão de pessoas ouvidas pela reportagem, se continuar sendo possível acessar as plataformas após uma possível proibição.
Além disso, essas empresas patrocinam uma série de influenciadores digitais. O temos é que eles se voltem contra Lula em plena campanha eleitoral caso as atividades sejam afetadas.
Mesmo na cúpula do governo há dúvidas sobre quais seriam os efeitos políticos de uma proibição ou restrição. As bets têm influência, por exemplo, no Congresso, por onde uma eventual MP ou Projeto de Lei precisaria passar.
A oposição às bets deverá ser levada pela campanha de Lula à televisão nesta terça (22). O programa já foi ao ar na internet nesta segunda (21). A ideia do petista é se comprometer a lutar contra essa atividade econômica.
A peça mostrou uma conversa de Lula com pessoas que se endividaram por causa do vício em jogo. O histórico das bets no Brasil foi apresentado como iniciado no governo Temer, passando pela gestão Bolsonaro sem regulamentação ou cobrança de impostos.
Lula busca reverter queda nas intenções de votos
A oposição às bets é popular junto ao eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou que 57% dos brasileiros avaliam que as apostas online são um vício. E 31% acreditam que se trata de uma perda de dinheiro. O petista busca uma pauta que o ajude a conter o avanço de seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro.
Aliados do presidente dizem que ele tem tocado no assunto com frequência em conversas reservadas. E que seus discursos públicos são semelhantes às ideias que expressa em privado. A oposição às bets teve destaque nos últimos dois comícios de Lula, em Guarulhos (SP) e Florianópolis (SC).
Na cidade da grande São Paulo, na sexta (18), ele listou relatos de brasileiros endividados por causa de apostas. Também disse ter organizado uma vaquinha para pagar R$ 24 mil em dívidas de uma pessoa causadas por jogos online.
Lula afirmou ter encontrado essa mesma pessoa recentemente e conversado sobre o assunto. “Perguntei ‘você está jogando?’. Ele começou a chorar e falou: ‘estou devendo R$ 50 mil, presidente. Já gastei seus R$ 24 mil e estou devendo mais R$ 50 mil, eu vou me matar’”. O petista em seguida afirmou que o vício em jogo é uma doença, e disse que acabará com as bets.
Além disso, a campanha do presidente tem distribuído nas redes sociais diversas peças de propaganda contra as bets. O grupo tenta responder à afirmação de clubes de que o esporte acabaria no Brasil se as bets forem proibidas.