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Bets duplicam faturamento no Brasil e entregam R$ 4,5 bilhões em impostos, mesmo patamar dos setores de tabaco e agricultura

| By Gildo Mazza
Empresas de apostas faturaram R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026 e contribuíram com 37% de suas receitas para os cofres públicos.

Dados da Receita Federal indicam que a receita das bets licenciadas no Brasil dobrou nos quatro primeiros meses de 2026 em relação a 2025. A arrecadação com impostos sobre apostas saltou de R$ 2,2 bilhões nos primeiros quatro meses do ano passado para R$ 4,5 bilhões de janeiro a abril de 2026. O montante arrecadado neste ano já fica próximo às contribuições feitas pela indústria do tabaco e pela agricultura. Elas pagam cerca de R$ 1 bilhão por mês em impostos cada.

Levando em consideração que a contribuição das casas de apostas ao fisco representa 37% da receita delas, as bets tiveram uma receita de R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano. Os dados foram apresentados em matéria da Folha de S.Paulo deste domingo (7).

Em 2025, o faturamento do setor foi de R$ 36,9 bilhões. O desempenho das bets está sujeito a variáveis sazonais. Entre eles, finais de campeonato de futebol e tende a avançar no meio e no fim do ano. Com a chegada da Copa, a expectativa é de forte expansão neste ano.

“É um setor que está se consolidando”, afirma Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias ANJL).

Fonte de receita adicional

Para Lauro Gonzalez, da Fundação Getulio Vargas, o aumento da receita está relacionado à maior penetração das casas de apostas na sociedade brasileira por meio de publicidade.

A consultoria H2 Gambling Capital projeta uma fonte de receita adicional durante a Copa do Mundo. Ela poderá girar entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões nos valores depositados para apostas durante o campeonato. Ed Birkin, presidente da H2, afirma que o ganho extra exato gerado pelo evento ainda é incerto porque dependerá diretamente dos resultados das partidas em campo.

Jogadores e as bets

Desde 2025, início do mercado regulado, o Ministério da Fazenda já emitiu 85 licenças para empresas, que operam 187 sites autorizados.

Pelos dados da Fazenda, 25 milhões de CPFs fizeram apostas em 2025. Segundo o governo cada jogador gastou em média R$ 123 por mês em apostas online durante 2025. O valor desconta do total as premiações recebidas de volta.

No final do ano passado, dez marcas concentravam 68,8% do mercado, segundo estimativas da H2. A líder é a grega Betano, com cerca de 23% da receita gerada com apostas no Brasil em 2025. As inglesas bet365 e SportingBet, a pernambucana Esportes da Sorte e a romena Superbet disputam o topo do ranking. São seguidas por Blaze, Betnacional, EstrelaBet, CassinoPix e 7K no top10.

Marco Túlio Oliveira, CEO da Ana Gaming, que controla duas marcas entre as dez maiores bets (7K e CassinoPix), avalia que o ritmo de crescimento dos sites de apostas deve desacelerar em relação ao que foi visto até agora. “Era um mercado que não existia e agora as empresas já se instalaram”.

Ele espera um crescimento entre 10% e 15% neste ano. “Depois, o mercado legal vai crescer como cresce a economia”, afirmou à Folha.

Para Birkin, da H2 Gambling Capital, o mercado de apostas online está saturado de empresas de porte muito pequeno. Ele avalia que algumas devem falir ou ser compradas por bets maiores. “Não é algo popular de se dizer, mas o fato é que existem operadores legalizados que simplesmente têm desempenho abaixo do esperado e não possuem uma estrutura boa o suficiente”, afirmou o executivo.

Críticas são “inveja”

Alguns levantamentos apontam aumento de apostadores que vivem situação de jogo compulsivo. Ao mesmo tempo, a CNC (Confederação Nacional de Comércio) alega que o endividamento da população é culpa das bets.

O presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), Andre Gelfi disse que se trata de “inveja”. Para ele, “o varejo está com dificuldades porque o cobertor está curto para a família brasileira. Eles veem as bets fazendo publicidade e acham que estamos ganhando dinheiro, o dinheiro que eles perderam”, afirma.

Ele diz que o endividamento também pesa sobre as bets, já que reduz o poder de jogo. “O cobertor curto do varejo também é curto para a gente”.

Clandestinidade

Apesar das cifras vultosas da indústria, a concorrência das bets ilegais e dos mercados de previsão é o principal tópico das discussões do setor com o governo.

Segundo as bets, esses sites oferecem apostas sem pagar a licença de R$ 30 milhões e impostos. E tampouco respeitam normas de publicidade. A dispensa dos custos operacionais permite que os operadores ilícios ofereçam prêmios mais atrativos.

O jogo ilegal tampouco tem mecanismo de autoexclusão, que permite ao jogador escolher não ser aceito em uma plataforma. O sistema foi criado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).

 Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo IBJR, estima que as bets clandestinas representaram algo em torno de 41% a 51% do mercado total. Nesse cenário, o naco da operação ilícita estaria entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.

Mercado ilegal movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025

As bets também pressionaram o governo a incluir os mercados de previsão como Kalshi e Polymarket no rol de empresas ilegais. A Fazenda acatou e derrubou esses sites no final de abril.

Conforme o IBJR, a atividade desses sites no Brasil continua apesar das restrições. O instituto entregou uma notificação para o governo sobre o tema no último dia 29.

Segundo cálculos da H2, com base em informações do BC sobre remessas ao exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego nos sites ilícitos, o mercado clandestino movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025. Birkin reconhece, porém, que não há número oficial para o tema.