Desenrola Brasil levará apostadores bloqueados nas bets legais para o mercado clandestino
Para André Gelfi, diretor, conselheiro e cofundador do IBJR, o combate rigoroso ao mercado ilegal de apostas é fundamental para a eficácia do Programa Desenrola Brasil. Segundo ele, o brasileiro não vai deixar de apostar. Ele avalia como erro bloquear bets licenciadas. Isso pode gerar um estímulo de usuários para plataformas clandestinas, que já movimentam R$ 40 bilhões.
Gelfi mostra uma preocupação quanto ao programa bloquear bets licenciadas. “Ela é acentuada pela proximidade da Copa do Mundo, período de natural aumento no volume de apostas esportivas” Outro ponto é a potencial perda de R$ 10,8 bilhões em arrecadação para o país caso o consumo seja deslocado para a clandestinidade.
Gastos com apostas é ínfimo se comparado a streaming e celulares
Ele aponta uma grande contradição da Confederação Nacional do Comércio (CNC), ao afirmar que as bets retiraram quase R$ 144 bilhões do mercado. “Um estudo da LCA mostra que o gasto com apostas é ínfimo se comparado a outros itens, como gastos com streaming, celulares ou até bebidas alcoólicas”.
“A CNC olha para o fluxo bruto e assume que aquilo “sumiu” do varejo, o que é um erro metodológico grosseiro”, diz.
Sobre as críticas contra as bets, Andre Gelfi acredita que elas irão crescer com a campanha eleitoral. “O tema “apostas” é um prato cheio para o populismo político. É fácil para um candidato atacar as bets para demonstrar preocupação com a moral e os bons costumes ou com a economia doméstica, sem precisar apresentar soluções reais para o endividamento”.
Entrevista completa com Andre Gelfi
iGaming Business – Qual sua avaliação do Novo Desenrola Brasil?
André Gelfi – O Desenrola é uma iniciativa positiva do ponto de vista de saúde financeira nacional. O endividamento é um problema estrutural no país já de longa data, e qualquer medida que ajude o cidadão a limpar seu nome e retomar o poder de consumo é válida. Para nós, do setor de apostas legalizadas, é fundamental que o consumidor esteja financeiramente saudável e que “jogo” seja encarado como entretenimento. A eficácia das medidas de proteção financeira do Programa depende, fundamentalmente, de um combate rigoroso ao mercado ilegal de apostas.
Nosso mercado corresponde a apenas 0,46% do consumo das famílias brasileiras, de acordo com estudo da LCA Consultoria, que cruzou dados da SPA de 2025. Os gastos com streaming, por exemplo, representaram o dobro deste valor. O endividamento está concentrado no custo do crédito, especialmente no rotativo do cartão, que possui taxas altíssimas de juros.
Bloqueio pode gerar perda de R$ 10,8 bi em arrecadação durante a Copa do Mundo
iGB – Do seu ponto de vista, impedir que os beneficiários do programa apostem é uma medida correta?
AG – Existe uma nuance muito importante nessa questão: o brasileiro não vai deixar de apostar. Restrições de acesso ao setor regulamentado podem gerar um estímulo à migração de usuários para plataformas clandestinas, que já movimentam cerca de R$ 40 bilhões. O combate ao mercado ilegal é o passo mais urgente para evitar que operadores sem licença, muitas vezes associados ao crime organizado, aproveitem janelas de restrição para atrair o público vulnerável. Essa preocupação é acentuada pela proximidade da Copa do Mundo, período de natural aumento no volume de apostas esportivas, e pela potencial perda de R$ 10,8 bilhões em arrecadação para o país caso o consumo seja deslocado para a clandestinidade.
Como Instituto, reforçamos que a proteção real do cidadão e a integridade do Desenrola 2.0 passam por uma atuação coordenada entre Governo e setor privado. Defendemos políticas públicas que combinem educação financeira, fortalecimento do Jogo Responsável e uma ofensiva estratégica contra sites clandestinos, garantindo que o entretenimento ocorra exclusivamente em um ecossistema seguro, transparente e devidamente fiscalizado.
“Bode expiatório”
iGB – Se as apostas representam apenas 0,46% do consumo familiar, como associá-las ao endividamento?
AG – Essa é a grande contradição que tentamos esclarecer. O estudo da LCA mostra que o gasto com apostas é ínfimo se comparado a outros itens, como gastos com streaming, celulares ou até bebidas alcoólicas. E reforça que o principal fator de endividamento no orçamento dos brasileiros segue sendo o alto custo do crédito. Associar estas dívidas exclusivamente às bets é simplista. O endividamento no Brasil é multifatorial: juros altos, inflação de alimentos e falta de educação financeira. As apostas se tornaram um bode expiatório conveniente, mas os números provam que elas não são a causa da crise financeira das famílias.
iGB – Como combater os sites ilegais, se a cada dia surgem novas plataformas?
AG – O combate deve ser técnico e implacável. A regulamentação que entrou em vigor em janeiro de 2025 foi o primeiro passo, mas a luta continua. Precisamos de bloqueio de IPs e URLs eficaz pela Anatel. Além disso; asfixia financeira, impedindo que meios de pagamento operem com sites que não possuem a licença da SPA. Outro ponto é o controle de publicidade, banindo influenciadores e plataformas que promovam sites ilegais. Temos um infográfico que ilustra as frentes nas quais acreditamos.
Mentiras e críticas no período eleitoral
iGB – Por que há tantas informações falsas sobre o setor de apostas esportivas e jogos online?
AG – Estamos vivendo o “estigma do novo”. O setor saiu das sombras muito rapidamente e isso gera medo. Além disso, a falta de dados históricos oficiais no Brasil permitiu que qualquer narrativa ganhasse fôlego. Há também grupos com interesses econômicos contrários que aproveitam a falta de conhecimento técnico da população para propagar o pânico moral. É por isso que o IBJR foca tanto em transparência.
iGB – Você acredita que as bets ainda serão muito criticadas durante o processo eleitoral?
AG – Sem dúvida. O tema “apostas” é um prato cheio para o populismo político. É fácil para um candidato atacar as bets para demonstrar preocupação com a moral e os bons costumes ou com a economia doméstica, sem precisar apresentar soluções reais para o endividamento. Teremos que ser resilientes e continuar respondendo a críticas políticas com fatos econômicos.
“Erro metodológico grosseiro”
iGB – Os recentes dados apresentados pela CNC dizem que as bets retiraram quase R$ 144 bilhões do mercado. De onde eles tiraram essa informação e por que os números são tão diferentes daqueles divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas? Qual o objetivo deles em propagar informações falsas?
AG – Este estudo realizado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) parte de uma premissa completamente desalinhada com os dados oficiais. Eles falam em um mercado de apostas movimentando R$ 30 bilhões mensais.
No entanto, os dados oficiais do próprio Governo, via Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), apontam para uma receita bruta de R$ 37 bilhões por ano. A CNC olha para o fluxo bruto e assume que aquilo “sumiu” do varejo. Isso é um erro metodológico grosseiro.
Conforme mencionei anteriormente, o estudo divulgado recentemente pela LCA aponta que as apostas representam cerca de 0,46% do consumo das famílias, menos do que é gasto com bebidas alcoólicas ou celulares, e um impacto infinitamente menor que o dos juros bancários. O peso disso no endividamento é muito baixo.
O IBJR, inclusive, enviou uma notificação formal à CNC, cobrando transparência metodológica e acesso integral às bases de dados que fundamentam o estudo. Ele parte de uma premissa completamente desalinhada com os dados oficiais. Acredito que o objetivo de propagar esses números inflados seja para pressionar por mais restrições ou proteger setores tradicionais do varejo que sentem a concorrência pelo “share of wallet” (fatia do orçamento) do consumidor.
Estudos e canal aberto com o governo
iGB – Como levar ao mercado informações verdadeiras sobre o setor e como mostrar isso ao governo?
O caminho é a cientificidade. O IBJR tem investido em estudos e mantido um canal aberto com a SPA e o Ministério da Fazenda. Precisamos mostrar que o setor gera empregos, paga impostos robustos e possui tecnologia de ponta para identificar o jogo patológico. A transparência nos relatórios de conformidade que entregamos ao governo é a nossa maior prova de boa fé. Para a sociedade em geral, disponibilizamos em nosso site uma aba de mitos e verdades para também desmistificar informações erradas.