Impacto das apostas no orçamento doméstico é limitado
Alexandre Fonseca defende que o impacto das apostas no orçamento das famílias é limitado e que o endividamento no Brasil decorre principalmente de fatores estruturais, como juros altos e crédito caro.
No artigo para O Globo, ele afirma que as bets representam pequena parcela do consumo, não podem ser equiparadas ao crédito e geram empregos, arrecadação e patrocínio ao esporte. Segundo o autor, proibir ou sufocar o mercado regulado só fortaleceria plataformas ilegais e reduziria a proteção ao consumidor.
De acordo com o CEO da Superbet, a ilegalidade já responde por 51% das operações no Brasil, movimentando R$ 40 bilhões por ano à margem da regulação.
Fonseca também destaca diferenças entre o perfil demográfico de apostadores e o de inadimplentes, sugerindo cautela ao estabelecer relação direta entre os dois fenômenos.
Impacto das apostas no orçamento doméstico é limitado
O debate sobre o endividamento das famílias ganhou contornos intensos, impulsionado por manifestações do presidente Lula sobre o impacto das apostas no orçamento familiar. A preocupação é legítima e compartilhada pelos operadores regulados — o mesmo não se pode dizer do mercado clandestino, que opera à margem da fiscalização e aceita até o uso de cartão de crédito, prática proibida no setor formal. Contudo, em momentos de inflexão, é fundamental que o debate produza soluções eficazes e ancoradas em evidências.
O panorama de inadimplência no Brasil, que atingiu 5,2% em fevereiro de 2026, é movido por variáveis estruturais que precedem o segmento de lazer. Como apontado pelo Banco Central, o país convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo (9,51%), quase cinco vezes a média global. O peso desse custo materializa-se no endividamento de 101 milhões de brasileiros no cartão de crédito, modalidade em que a falta de pagamento no rotativo chega a 64,5%, sob juros anuais superiores a 400%.
Diante desse contexto, os dados públicos revelam que o impacto das apostas no orçamento doméstico é limitado. Segundo a LCA Consultoria, as bets representam 0,46% do consumo das famílias, com gasto médio mensal de R$ 122 por apostador. Em comparação, o pagamento de juros consome 8,6% das rendas, enquanto despesas com telefonia (1,88%) e streaming (0,86%) também superam o setor. Há ainda uma diferença técnica essencial: as apostas não constituem operação de crédito. Equiparar esse gasto, que é lazer à vista, a modalidades financeiras com juros de 400% carece de respaldo estatístico.
100 mil empregos
O levantamento da LCA também revela descolamento entre os perfis de apostadores e inadimplentes. Enquanto, entre os usuários de plataformas, predominam homens (68,3%) e pessoas com menos de 40 anos (74%), na inadimplência há distribuição de gênero equilibrada e maioria acima dos 40 anos (54%). Essa divergência demográfica sugere cautela ao estabelecer uma relação causal direta entre o mercado de apostas e o descumprimento de obrigações financeiras básicas.
A contribuição da atividade para a economia também precisa integrar a análise. A indústria gera cerca de 100 mil empregos, arrecadou R$ 9,95 bilhões em impostos em 2025 e somou R$ 2,5 bilhões no primeiro bimestre de 2026, um avanço de 236% sobre o período anterior. Mantido o ritmo atual, a arrecadação ao longo de 2026 pode alcançar R$ 15 bilhões. Somam-se a isso mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios esportivos, beneficiando o futebol e modalidades historicamente carentes de investimento privado.
Operações ilegais movimentam R$ 40 bilhões por ano
Trata-se de um setor legalizado e supervisionado pelo Ministério da Fazenda. Empresas autorizadas operam sob regras de funcionamento, proteção ao consumidor e integridade. Propostas de proibição exigem análise cuidadosa. A ilegalidade já responde por 51% das operações no Brasil, movimentando R$ 40 bilhões por ano à margem da regulação. É nesse ambiente clandestino que inexistem controles de identidade e mecanismos de jogo responsável.
Sufocar o mercado formal não eliminaria a demanda, apenas a deslocaria para plataformas ilegais, retirando do Estado instrumentos de proteção. Além disso, restrições severas à publicidade afetariam receitas de veículos de comunicação de R$ 5 bilhões ao ano, impactando cadeias produtivas e milhares de postos de trabalho.
O endividamento exige respostas compatíveis com sua complexidade, focadas no custo real do crédito, e não em simplificações que culpam um segmento de menos de 0,5% do consumo. O setor regulado está pronto para fortalecer a fiscalização e apoiar a educação financeira. É possível proteger o consumidor preservando um ecossistema que gera riqueza e transparência. O Brasil ganha mais quando enfrenta temas complexos com dados, equilíbrio e foco em soluções reais.
O artigo foi publicado nesta quarta-feira (27) no O Globo.