Superbet lança serviço para viciados em jogos em campanha de R$ 60 milhões com Cafu
Em meio ao aumento de relatos sobre os efeitos do vício nas bets, um dos três maiores sites de apostas do Brasil, a Superbet, anunciou, nesta segunda (31), o lançamento de uma linha de acolhimento 24 horas, via telefone e WhatsApp. Os jogadores serão encaminhados para acolhimento remoto no Instituto de Proteção ao Jogador (IPJ). Trata-se de uma unidade de atendimento fundada pelas bets que receberá investimentos adicionais da Superbet. O serviço, prestado por assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras, será divulgado em uma campanha publicitária de R$ 60 milhões (sem contar o investimento em saúde mental).
A ação de marketing teve início em um comercial na Globo estrelado pelo ex-jogador da seleção Cafu. Aconteceu nesta segunda, durante um dos intervalos da novela das 19h. Cada inserção de 30 segundos nessa faixa da programação sai por cerca de R$ 600 mil, segundo a lista de preços da emissora.
IPJ atenderá inicialmente 3.500 pessoas por mês
“É um investimento considerável, e eu não consigo nem cravar o valor total da campanha”, disse à Folha Alexandre Fonseca, o CEO da Superbet. “O mais caro será manter uma escala de atendimento para atender 1.000, 2.000, 3.500, 5.000 ou 10 mil pessoas. Nós vamos calibrar isso de acordo com o volume de procura”.
De início, a iniciativa amplia a capacidade de acolhimento do IPJ para até 3.500 atendimentos por mês. A dimensão do serviço será ajustada de acordo com a demanda, segundo a empresa.
Além das inserções na Globo, a bet planeja divulgar os serviços nas redes sociais, nos clubes que patrocina, como o São Paulo, e em LEDs à beira dos gramados de estádios de futebol. “Vamos utilizar todo o arsenal de mídia que nós temos aqui na Superbet”, afirma Fonseca.
De acordo com a empresa, a campanha “Superlinha” é o segundo maior investimento em mídia de sua história. Ficou atrás apenas da operação publicitária durante a Copa do Mundo. A parceira durante o mundial da Fifa também foi a Globo.
Educação e proteção ao consumidor
“Não é uma campanha que vise adquirir usuários ou de alguma forma capitalizar para empresa como marca”, diz o CEO.
Segundo o executivo, o objetivo é oferecer uma alternativa aos impactos que a indústria de apostas causa na sociedade. “Uns defendem a tributação, uns defendem o cancelamento da atividade, outros defendem uma regulamentação mais rígida. Nós, como especialistas nisso, acreditamos que a raiz do problema é a educação do consumidor”.
De acordo com o último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, publicado em 2025, aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros (0,8% da população) apresentaram quadros compatíveis com diagnóstico provável de Transtorno do Jogo, em linha com o resto do mundo.
Para o psiquiatra do Hospital das Clínicas Rodrigo Machado, o problema é a taxa de jogadores com risco de adoecimento. Está acima dos 7% – em outros países, esse índice fica entre 1% e 3%. “O número de diagnósticos de ludopatia demora mais a subir e ainda deve crescer em vista da legalização recente no país”.
Na Noruega, por exemplo, a taxa de jogadores adoecidos caiu de 1,4% em 2019 para 0,6% em 2022. Lá, o governo criou um duopólio estatal com duas empresas públicas e baniu a propaganda de agentes privados do exterior.
O CEO da Superbet diz que é difícil comparar os cenários dos dois países. “Na Noruega, partimos de uma base de educação muito alta, um cenário econômico completamente diferente, muito mais estável, uma renda muito mais alta e uma cesta de serviços básicos oferecidos pelo governo que é enorme”.
Sem propaganda, bets legais seriam rebaixadas ao nível das ilegais
Para Fonseca, o veto às apostas online criaria o maior mercado ilegal do mundo. Em 2025, o Brasil foi o terceiro país que mais gerou receita para as casas de apostas. Ficou atrás apenas de Estados Unidos e Inglaterra. Esse faturamento, que varia de R$ 50 a R$ 60 bilhões considerando bets reguladas e clandestinas, iria todo para a clandestinidade. “Eu não vejo isso no cenário, para ser muito sincero”.
Ele, que já foi diretor da Betano e negociou a compra dos naming rights do Campeonato Brasileiro, diz que a proibição das propagandas rebaixaria as empresas que pagaram R$ 30 milhões por uma licença e seguem regras contra o vício ao mesmo nível das marcas clandestinas. “A minha única diferenciação como casa de apostas regulamentada no Brasil é poder fazer publicidade ampla”, afirma.
“Sobretaxar nosso segmento teria zero resultado para o consumidor final. É diferente do mercado de bebida. Digamos que uma cerveja custe R$ 10, o governo a tributa em mais 10%, a cerveja passa a custar R$ 11. Seria uma tentativa de reduzir o consumo pela sobretributação. No nosso caso, os prêmios vão continuar os mesmos. As empresas só irão pagar mais impostos e terão menos dinheiro para investir”.
Mesmo diante de críticas do atual governo e promessas de endurecimento de regras por parte dos presidenciáveis, o executivo avalia que as bets ainda estão em expansão. A penetração no mercado brasileiro, segundo dados do Ministério da Fazenda de 2025, está na casa de 10% da população. Enquanto isso, 25% da população inglesa gasta em apostas online. “Ainda há espaço para crescer”.