Rede lotérica brasileira clama pelo início das operações da BetCaixa
Ricardo Amado Costa, presidente da Federação Brasileira das Empresas Lotéricas – Febralot, concedeu entrevista exclusiva ao iGB sobre o atual momento do setor. A entidade responde por 75% das vendas físicas da rede lotérica do Brasil. Ela é composta por cerca de 13 mil estabelecimentos em 98% dos municípios. No total, emprega diretamente 60 mil pessoas e outras 100 mil indiretamente por meio de vendedores ambulantes. As lotéricas estão decepcionadas com o adiamento do lançamento das apostas esportivas pela Caixa e o dirigente deixa claro isso na entrevista.
Na conversa, Ricardo Amado demonstra sua preocupação e frustração pelo fato de a Caixa ter postergado o lançamento de sua plataforma de apostas esportivas e jogos online. Ele diz que não se conforma com a demora e mais ainda com o anúncio de que o projeto ficou para 2027.
O Tribunal de Contas da União (TCU) vem pressionando a Caixa para explicar as razões para não lançar sua plataforma de apostas esportivas, já está licenciada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Após passar por todo o processo de regulação, pagou os R$ 30 milhões de outorga, mas não iniciou a operação. A Febralot pediu para ingressar na ação para apresentar seu posicionamento sobre o tema.
O dirigente entende como natural a atuação do TCU e sua preocupação com a eficiência na alocação de recursos públicos. Ele pretende mostrar ao Tribunal de Contas que a sustentabilidade depende da introdução de novos produtos. “As apostas de quota fixa já são uma realidade e a ausência desse produto representa perda de competitividade e oportunidades para o empresário lotérico”, afirma.
iGaming Business – Qual a percepção que a Febralot tem deste período em que as loterias da Caixa passaram a ser administradas pela subsidiaria?
Ricardo Amado Costa – A relação é muito boa de parte a parte. Tenho repetido uma frase que virou um mantra: a origem da rede lotérica é o jogo e o futuro da rede lotérica depende de como nós estaremos inseridos no novo mercado do jogo. A direção da Caixa Loterias tem este perfeito entendimento e sabe da seriedade do momento para que não percamos o protagonismo como principal e mais qualificado canal de comercialização de loterias no Brasil. Claro que os desafios são gigantes, como renovação de portfólio, hardware e softwares adequados e mais modernos e mídia mais agressiva. Essas são pautas permanentes na Febralot com a subsidiária Caixa Loterias. Porém eu posso garantir que os movimentos são todos no sentido de melhorar o nosso ambiente de negócios.
iGB – Mais uma vez a Caixa prorrogou o prazo para o lançamento de sua plataforma de apostas esportivas, deixando para 2027 o início das operações. Não é uma decisão equivocada, especialmente em ano de Copa do Mundo, que atrai a atenção de todos?
RAC – Desde o primeiro momento em que a BetCaixa foi citada, enquanto empresário e dirigente sindical presidente da entidade máxima representativa da categoria lotérica, defendi a importância e relevância deste produto pra rede lotérica brasileira. Pessoalmente não me conformo com a demora como também não me conformo com recente notícia veiculada na mídia de que o projeto ficou para 2027.
iGB – Na sua avaliação, por que a Caixa segue adiando o lançamento?
RAC – Eu não tenho essa informação, porém reitero que a BetCaixa agregada à participação da rede lotérica seria bastante benéfica como um todo. Especialmente pela credibilidade da marca Caixa Loterias e da rede lotérica. Seguramente é uma pena que estejamos impedidos de atuar comercialmente em um produto lotérico que tem um faturamento expressivo do qual não podemos ou não deveríamos abrir mão.

iGB – O Tribunal de Contas da União (TCU) tem acompanhado o processo relacionado ao lançamento da operação de apostas da Caixa. Como a Febralot avalia essa atuação, especialmente após sua admissão no processo em tramitação na Corte?
RAC – A Febralot entende como natural a atuação do Tribunal de Contas da União (TCU) no acompanhamento do tema. Uma vez realizada a outorga, é legítima a preocupação com a eficiência na alocação de recursos públicos. Além disso, a sustentabilidade da rede lotérica depende da introdução de novos produtos. As apostas de quota fixa já são uma realidade no comportamento do apostador brasileiro — inclusive do público da Caixa Loterias — e a ausência desse produto representa perda de competitividade e de oportunidades econômicas para o empresário lotérico.
iGB – Quanto a rede lotérica está deixando de arrecadar por não poder oferecer apostas de quota fixa?
RAC – A rede lotérica tem potencial relevante de contribuição ao mercado de apostas, especialmente pelo seu histórico na formação do consumidor brasileiro e na promoção de práticas de Jogo Responsável. Ao não participar desse novo segmento, deixa de capturar uma demanda já existente e consolidada. Isso impacta diretamente sua capacidade de geração de receita e competitividade no ambiente regulado. Esse efeito também se reflete na cadeia econômica associada à rede, que sustenta cerca de 60 mil famílias por meio de empregos diretos e indiretos em todo o país.
iGB – A rede lotérica está pronta para iniciar as vendas de apostas esportivas tão logo a Caixa lance sua plataforma?
RAC – A rede lotérica já nasceu pronta para trabalhar, em qualquer produto ou serviço. Em todos os nichos de mercado em que atuamos somos líderes e temos destaque. Não seria diferente na Bet.
iGB – Qual a porcentagem de lotéricas que deverão oferecer a Bet da Caixa quando ela for lançada e qual a expectativa em relação ao timing, considerando o contexto político?
RAC – A expectativa da Febralot é que, progressivamente, toda a rede lotérica possa oferecer o produto, respeitadas as limitações regulatórias. Especialmente em unidades com perfil voltado ao atendimento de beneficiários de programas sociais. A rede está preparada para impulsionar o negócio, apoiar a divulgação e reforçar práticas de Jogo Responsável. Em relação ao timing, há uma expectativa legítima de avanço ainda no curto prazo, com base em critérios técnicos e econômicos. A federação entende que eventuais pressões político-eleitorais devem se manter dissociadas de uma decisão que, para o empresário lotérico, é essencialmente de natureza econômica e estratégica para a sustentabilidade do setor.
iGB – A Febralot tem conversado com a Caixa para atuar também com as loterias estaduais? Existe alguma chance de o canal ser aproveitado pelas loterias estaduais?
RAC – Muito importante essa pergunta, e sim temos conversado constantemente com a Caixa sobre isso. Eu posso afirmar que existe por parte da Caixa o interesse em conversar com os demais players. É obrigação da federação incentivar eventual negociação que seguramente é importante para o empresário lotérico e para os apostadores de um modo geral.