Home > Apostas esportivas > KYC e pagamentos nas bets: espinhas dorsais para apostas esportivas no Brasil durante a Copa do Mundo

KYC e pagamentos nas bets: espinhas dorsais para apostas esportivas no Brasil durante a Copa do Mundo

| By Gildo Mazza
O maior torneio de futebol de todos os tempos está a apenas duas semanas de atrair a atenção de milhões de apostadores. Com regras rígidas estabelecidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), o país está mais do que preparado para a competição e as empresas de KYC e de payments já garantiram que estão prontas para o aumento da demanda.

A regulamentação das apostas esportivas no Brasil exigiu total comprometimento dos operadores para garantir segurança aos apostadores. O KYC e pagamentos na bets seguiram inúmeras determinações de portarias da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Com a chegada da Copa do Mundo, o iGaming Business conversou com algumas empresas do setor para verificar se elas estão prontas para o aumento da demanda.

As provedoras de serviços de KYC estão prontas para um onboarding rápido, sem fricções e com agilidade. Da mesma maneira, as processadoras de pagamento também se prepararam para o aumento da demanda. KYC e pagamentos nas bets são fundamentais para as operações reguladas no Brasil. Por isso o iGaming Business diz como o setor se comportará após ter ouvido operadores sobre como será esse momento.

Disponibilidade do serviço

Caio Brisola, VP de Produtos da Legitimuz

“Garantir um serviço de KYC com qualidade não serve de nada se esse serviço não estiver disponível”, diz Caio Brisola, VP de Produtos da Legitimuz. “Com isso buscamos garantir uma infraestrutura robusta, além de possuirmos redundâncias em todos os nossos serviços. Para a Copa do Mundo, ampliamos a redundância de servidores e garantimos fallback automático entre múltiplos provedores de infraestrutura. Nosso uptime atual é de 99,9% e a meta é mantê-lo mesmo com o tráfego multiplicando por 5x ou mais”, garante.

A Unico vem se preparando com uma estratégia que combina capacidade técnica, soluções inovadoras e prontidão operacional. Segundo Fernanda Beato, General Manager da Unico Brasil, em abril deste ano, a empresa processou 2,78 milhões de onboardings, uma média de 92,8 mil cadastros por dia.

“Além disso realizamos 47,25 milhões de transações, totalizando mais de 50 milhões de movimentações no setor de iGaming apenas no mês de referência, o que equivale a 1,6 milhão de transações por dia”.

A executiva lembra que a Copa do Mundo acontece pela primeira vez em que o mercado está regulado no Brasil. “Isso reforça o quanto velocidade, segurança e conformidade precisam coexistir. Isso aumenta a responsabilidade dos provedores de infraestrutura de identidade e exige preparação antecipada para absorver grandes volumes sem comprometer a experiência do usuário”.

Alta demanda

Fernanda estima para o Mundial ultrapassar 150 milhões de transações. “Serão cerca de 5 milhões por dia, considerando o aumento de interesse e picos concentrados de volume típicos em apostas. E especialmente nos momentos de saque após os jogos”.

Brisola diz que nas últimas semanas, vários clientes pediram para a Legitimuz provisionar a capacidade da infraestrutura para suportar um volume de tráfego até 5x maior para o período do torneio. “Essas ações já foram tomadas. Mas também estamos preparados para suportar um volume até maior, de até 10x, caso seja necessário”, destaca.

Para ele, os provedores de serviços de KYC que se preparam para este momento, terão condições de garantir rapidez e facilidade no onboarding. “Os que não se prepararam vão descobrir o problema na pior hora. Onboarding lento durante a Copa não é apenas uma experiência ruim – é receita que vai para o concorrente”, afirma.

O executivo lembra que um estudo lançado pela Legitimuz sobre o perfil do apostador brasileiro em 2025 mostra que mais de 50% está cadastrado em dois ou mais operadores. “Ou seja, a fidelidade a uma marca não é exatamente a característica desse público. Um segundo a mais na demora no cadastro é o que separa o abandono de uma bet para partir para outra. E como nossa verificação facial acontece em menos de 3 segundos, isso pode ser o diferencial de uma conversão para um abandono de cadastro”.

“Como base de comparação, a experiência da Unico no Mundial de Clubes de 2025 registrou um crescimento de 70% no volume de onboardings durante o torneio em relação ao anterior. Sendo o Mundial de Futebol 2026 o primeiro grande evento esportivo realizado sob esse novo cenário regulatório, os picos de acesso serão altamente concentrados e massivos”, comenta Fernanda.

Diferencial competitivo

No mercado regulatório, rapidez deixou de ser apenas uma questão de experiência do usuário e passou a ser, também, um diferencial competitivo. “Plataformas que enfrentam fricção excessiva ou falhas de autenticação durante grandes eventos esportivos correm o risco de abandono no cadastro e perda da conversão”, prevê Fernanda.

“A Unico já provou, por meio de sua Revalidação Inteligente, que é capaz de agilizar processos críticos. A autenticação silenciosa em fluxos que não demandam biometria facial é 15 vezes mais rápida que processos tradicionais. Isso reduz a fricção e aumenta a conversão”, diz.

Além disso, segundo ela, o uso de widgets integrados garante que o usuário tenha uma experiência mais fluida e contínua durante o cadastro na plataforma de iGaming. “Esse design de ponta a ponta, aliado ao reaproveitamento de documentos, permitiu reduzir o tempo médio de onboarding para até 21 segundos”, garante.

Golpes

Entre os desafios que se apresentam para as empresas e KYC, Brisola aponta a possibilidade de golpes durante a Copa. “Um deles é o de lavagem de dinheiro, que acontece de diversas formas, como pelo depósito de recursos de origem ilegal nos sistemas das bets, para que, ao serem sacados, tenham a aparência de lucro legítimo. A Copa é um vetor importante para essa prática aos olhos dos criminosos. Eles acham que, devido ao grande volume de apostas, planejam passar ilesos”.

Uso indevido de identidade

“Há um desafio importante relacionado à segurança. Grandes eventos esportivos costumam atrair tentativas mais sofisticadas de fraude, incluindo uso indevido de identidade e criação de contas falsas em massa. Isso exige mecanismos robustos de autenticação e monitoramento capazes de equilibrar segurança e experiência do usuário sem gerar fricção excessiva”, explica Fernanda.

Outro desafio é manter a confiança e reduzir a fricção no onboarding. “Sem processos rápidos e integrados, novos apostadores podem abandonar a plataforma ainda durante o cadastro. A Unico mitiga isso com soluções como widgets integrados, Revalidação Inteligente e centralização de listas. Isso garante uma experiência mais fluída, segura e aderente às exigências regulatórias, mesmo em cenários de altíssima demanda”, comenta.

Fernanda Beato, General Manager da Unico Brasil

Durante a Copa, três ações devem concentrar a maior parte das suspeitas de lavagem de dinheiro, de acordo com Brisola. Os saques fracionados, rollover insuficiente e divergência entre conta de depósito e conta de saque.

“Para combater essas práticas, nós oferecemos o AML, um módulo que realiza o monitoramento contínuo, 24/7 das operações. Ele executa alertas configuráveis para padrões suspeitos e cria relatórios prontos para auditoria e para o COAF. Além disso, esse módulo foi desenvolvido a partir de uma matriz de risco no-code, que as bets podem configurar sem depender do time de TI. E se o operador já é um cliente Legitimuz, ele só precisa acionar o módulo, sem precisar configurar nada, informa.

Transações financeiras na ponta dos dedos

Não apenas a validação de usuários está apta a enfrentar a alta demanda que será gerada pela Copa do Mundo. KYC e pagamentos nas bets andam de mãos juntas es empresas de payments também estão atentas às possibilidades de aumento das movimentações de depósitos e saques nas plataformas.

Leonardo Chaves, General Manager OKTO PAYMENTS Brasil, diz que a Copa, além de ter mais jogos, trará também um novo tipo de usuário para o mercado de apostas. “Alguém que vai abrir conta numa plataforma pela primeira vez, provavelmente no intervalo de um jogo, pelo celular, com zero paciência para passar por um processo burocrático. Isso muda completamente o perfil de exigência da infraestrutura”.

Pay4Fun se preparou em três frentes: tecnologia, compliance e operação

“Do ponto de vista tecnológico, realizamos investimentos importantes em infraestrutura, escalabilidade e redundância de sistemas. Isso para suportar picos extremos de transações simultâneas, especialmente em grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo”, diz Leonardo Baptista, cofundador e CEO Pay4Fun.

Na parte operacional, a empresa fortaleceu as equipes de monitoramento, atendimento e prevenção a fraudes, trabalhando em regime praticamente contínuo durante períodos críticos de jogos.

Além disso, houve uma preparação muito forte em compliance e governança. Isso porque o mercado brasileiro está vivendo um momento de consolidação regulatória. “Não basta apenas processar pagamentos com rapidez. É necessário garantir segurança, rastreabilidade e aderência às exigências regulatórias do Banco Central e das novas regras do setor de apostas”, afirma Léo Baptista.

40% mais partidas e janelas de apostas

“A preparação não foi pontual. A arquitetura que já está rodando no dia a dia, testada em eventos anteriores, com sistemas de backup para garantir continuidade mesmo em grandes picos de acesso nas plataformas. O que muda na Copa é o volume e a velocidade com que os picos acontecem, e é exatamente para isso que o sistema foi construído”, garante o General Manager da OKTO.

Léo Chaves traz uma comparação. “A Copa do Qatar, em 2022, movimentou US$ 35 bilhões em apostas esportivas globalmente. Isso representa 65% a mais do que a Copa de 2018. Os analistas de mercado projetam que 2026 pode superar esse valor em quatro ou cinco vezes. E tem razão estrutural para isso: são 48 seleções, 104 jogos, 39 dias de competição. Em comparação com o Qatar, estamos falando de 40% mais partidas e, portanto, 40% mais janelas de aposta”.

Segundo ele, no Brasil, esse crescimento acontece sobre uma base que simplesmente não existia quatro anos atrás: um mercado regulado, com operadores licenciados e Pix como método dominante de pagamento. “Cerca de 99% das transações de apostas no Brasil passam pelo Pix hoje. E quando olhamos para o comportamento do consumidor, 53,7% dos brasileiros entrevistados disseram que vão apostar na Seleção independentemente das odds. Ou seja, a cada jogo do Brasil, os operadores vão sentir um pico de tráfego e volume que vai testar cada ponto da infraestrutura”.

Jogos do Brasil como variável central

“Não há como prever o número exato, mas qualquer estimativa precisa incluir concentração de apostas nos jogos da Seleção como variável central. A OKTO PAYMENTS opera por meio de uma plataforma unificada que abrange tudo. Vai desde pagamentos e recebimentos instantâneos até gestão de tesouraria e liquidez, além de liquidações em diversos mercados”, diz.

Leonardo Chaves, General Manager OKTO PAYMENTS Brasil

“No Brasil, isso inclui soluções personalizadas como o Pay and Play 2.0. Ele combina o cadastro e a iniciação de pagamentos em um único fluxo. E o Pix Biométrico, pelo qual os usuários podem efetuar depósitos usando apenas o reconhecimento facial ou a autenticação por impressão digital sem sair do ambiente do operador. No âmbito operacional, nosso Sistema de Gestão de Tesouraria (TMS) oferece aos operadores visibilidade em tempo real sobre saldos, liquidez e operações de liquidação durante períodos de alto tráfego”, explica.

Para Leonardo Baptista, a expectativa é de um crescimento extremamente relevante tanto em número de usuários quanto em recorrência transacional. “Em dias de jogos da Seleção Brasileira, por exemplo, o mercado costuma registrar volumes muito acima da média normal”, analisa o CEO da Pay4Fun.

“Além disso, hoje o Pix tornou o ambiente muito mais dinâmico. O apostador deposita, aposta e saca praticamente em tempo real, o que aumenta significativamente a quantidade de transações financeiras ao longo do evento”, diz.

Rapidez nas transações

Os provedores de serviços financeiros para as bets que se prepararam para a alta demanda por transações. “Os que trataram pagamento como uma questão operacional coadjuvante provavelmente vão ter problemas sérios. O desafio específico da Copa é que os picos de tráfego ocorrem em questão de segundos assim que um gol é marcado, um cartão vermelho é aplicado, uma revisão de VAR começa. Nesses momentos, todo o volume de apostas ao vivo explode simultaneamente em vários países e plataformas”, comenta Leonardo Chaves.

“Operadoras que já estruturaram seus sistemas para processar saques em tempo real, com gestão de liquidez integrada aos métodos de pagamento locais e com sistemas redundantes têm uma grande vantagem sobre as que ainda tratam esse processo como uma fila de espera. A Copa vai tornar essa diferença visível para o usuário final. O torcedor que ganhar uma aposta e esperar o saque por horas vai lembrar disso na próxima vez que escolher onde apostar”, reforça.

O CEO da Pay4Fun concorda que os provedores que realmente investiram em tecnologia, infraestrutura e governança certamente estarão preparados. “Hoje o usuário de apostas possui uma expectativa muito alta em relação à velocidade das transações. Ele quer depositar instantaneamente e, principalmente, sacar com rapidez. Durante grandes eventos, isso se torna ainda mais crítico”, atesta.

“O desafio não é apenas capacidade tecnológica, mas também estabilidade operacional e gestão de risco em tempo real. Empresas sérias do setor vêm se preparando há bastante tempo para garantir experiência fluida mesmo nos momentos de pico”, garante Léo Baptista. “Acredito que veremos um mercado cada vez mais profissionalizado. Velocidade e confiabilidade deixarão de ser diferenciais e passarão a ser obrigações básicas”.

Plataformas clandestinas

Uma questão que atrapalha o desenvolvimento sustentável do setor é a grande quantidade de plataformas ilegais. Uma das formas que o próprio mercado aponta é o estrangulamento das transações financeiras.

“O combate às bets ilegais depende cada vez mais de monitorar e interromper a movimentação financeira dessas operações. Não se resume só em bloquear domínios. Um projeto em tramitação na Câmara prevê que instituições financeiras e de pagamento passem a monitorar transações suspeitas, compartilharem informações sobre fraudes e enfrentarem restrições operacionais em casos de falhas recorrentes. Na prática, essas empresas ganham um papel ativo no rastreamento de operadores clandestinos”, comenta Leonardo Chaves.

Pix

O Brasil tem uma vantagem relevante nesse cenário, pois cerca de 99% das transações de apostas passam pelo Pix. “Essa concentração cria um nível de rastreabilidade muito difícil de existir em outros mercados. Se você consegue seguir o dinheiro, identificar padrões suspeitos e limitar a movimentação ligada a operadores ilegais, você atinge diretamente a operação dessas plataformas. Sem dinheiro circulando, não existe negócio”, aposta Chaves.

“Mas há uma condição necessária para esse modelo funcionar: o mercado regulado precisa oferecer uma experiência tão fluida quanto o ilegal, mas com rastreabilidade e segurança reais. O mercado ilegal passou anos se aperfeiçoando em conveniência justamente porque nunca precisou se preocupar com compliance. Quem quiser contornar o sistema sempre vai encontrar caminhos alternativos se o ambiente regulado gerar fricção demais. Apostar legalmente precisa ser mais fácil, rápido e seguro do que operar fora do sistema”, avalia o executivo da OKTO.

Leonardo Baptista, cofundador e CEO Pay4Fun

Leonardo Baptista concorda e defende que o combate às operações ilegais necessariamente passa pelo sistema financeiro. “Quando o mercado regulado trabalha em conjunto com instituições financeiras, Banco Central, órgãos reguladores e provedores de pagamento, torna-se possível dificultar significativamente a operação dessas plataformas clandestinas. Operadores ilegais dependem de movimentação financeira para sobreviver. À medida que o mercado cria mecanismos mais rígidos de identificação, monitoramento e bloqueio de transações suspeitas, o espaço dessas operações tende a diminuir”, afirma.

O CEO da Pay4Fun destaca ainda um fator importante, a conscientização do usuário. “O apostador precisa entender que plataformas regulamentadas oferecem segurança financeira, proteção de dados, garantia de pagamento e mecanismos de Jogo Responsável. Isso é algo que operações clandestinas simplesmente não conseguem assegurar”.

Experiência do apostador é tudo

Segundo ele, o maior desafio no momento é crescer sem sacrificar a qualidade de experiência do apostador. “Não adianta a infraestrutura aguentar o volume se o usuário final sentir lentidão ou instabilidade. E a Copa de 2026 vai pressionar isso de um jeito que nenhum evento anterior chegou perto. Serão 104 jogos, transmitidos em fusos diferentes, com apostas ao vivo reagindo a momentos específicos das partidas em tempo real. Qualquer fragilidade no sistema aparece imediatamente”.

“Para quem opera no Brasil, há um fator adicional: a dependência quase total do Pix. Isso é uma vantagem em rastreabilidade e velocidade, mas também amplifica o risco caso o sistema enfrente qualquer instabilidade. Por isso que sistemas redundantes e backups operacionais são um pré-requisito básico de funcionamento durante o torneio”, define Chaves.

“Tem um desafio que vai além da infraestrutura: receber bem um apostador que nunca usou uma plataforma de apostas antes. Quase metade dos brasileiros que pretendem apostar na Copa normalmente não aposta. Esse usuário vai avaliar a experiência completa — cadastro, depósito, navegação, saque — em segundos, sem nenhuma paciência para burocracias. A Copa vai criar uma janela única para conquistar esse público, mas também para perdê-lo de vez, dependendo da rapidez, fluidez e confiabilidade da experiência de pagamento no momento em que ele decidir jogar”, analisa.

“A Copa do Mundo representa uma oportunidade gigantesca para o setor, mas também será um grande teste de maturidade para toda a indústria de pagamentos voltada ao mercado de apostas”, conclui Leonardo Baptista.